Pelo menos quando eu comecei era assim: cartão de Natal da agência? Passa pro estagiário (ou pra aquela dupla que não se sabe bem porque deixou ser estagiária).
Era meio que um rito de passagem. Se o “cartão” (que está com aspas porque o “cartão” podia significar cartão, anúncio, pôster, spot ou alguma outra coisa que merecesse aspas no cartão) ficasse bacaninha, desse até pra inscrever no anuário, tivesse um retorno além daqueles que o espelho normalmente dá para os criativos, você ficava bonito na foto, tinha futuro. O ônus dessa vitória é que muito provavelmente você também teria que fazer o maldito “cartão” no ano seguinte, caso os estagiários ou as duplas da base da cadeia alimentar não conseguissem performar.
Meu tempo de profissão mostrou que o humor é sempre bem vindo. Principalmente quando o assunto/produto/serviço é batidaço, ou, como preferem os frequentadores de reuniões de marketing, commoditizado.
Cerveja? Falar o que dessa mistura de lúpulo, cevada e água em que todas têm basicamente na mesma proporção? Melhor provocar um sorriso quando à essa fórmula você adiciona um rótulo (marca).
Carro X ou Y modelo 2012 com incrível novo sensor de estacionamento? Ora, melhor contar a “novidade” com uma historinha divertida e alegre.
O mesmo vale para o cartão de Natal. Os bem humorados, soltinhos, quase galhofeiros têm mais chance de serem notados nesse turbilhão de mensagens natalinas que recebemos por todos os meios.
Pois bem, nos Estados Unidos (e Inglaterra também) esse job menor, terror dos criativos, virou filé mignon. Acho que o fato dos clientes estarem cada vez mais avessos a novidades anda ajudando muito.
Num cenário inibidor de criatividade, onde o cara vai mostrar que é o novo David Ogilvy, o Bogusky do amanhã? No cartão de Natal!
Semana passada, a Droga 5, a fantástica agência do David Droga (um cara divertidíssimo que foi meu companheiro de júri em Cannes/98) provocou o mais eficaz dos risos - aquele motivado pela ironia - ao publicar um release no qual dizia estar entregando a “conta cartão de Natal da agência” para a McGarryBowen.
Entendendo o contexto: a McGarry é uma agência de mais ou menos 10 anos que nos últimos 2 ou 3 ganhou um monte de contaças: Burger King, Kraft, Verizon, Pfizer etc, ect, etc. Parte dessas contas foram ganhas em concorrências nas quais estavam as mais Messis das agências: Widen, Crispin e própria Droga 5.
O detalhe é que enquanto a Droga 5 é considerada uma das agências mais criativas do mundo com diversos Grand Prix em Cannes (eu disse Grand Prix!), a McGarry é uma agência que parece ter se teletransportado diretamente da década de 70 para o século 21. O trabalho é certinho, sem arroubos de brilhantismo ou revoluções estéticas. Ela não tem nenhum guru de redes sociais, nem nenhum profeta a anunciar o fim dos 30 segundos. O site deles, by the way, veio junto no teletransporte. Enfim, o mercado tenta rastrear o segredo da McGarry que ano passado foi eleita a agência do ano pelo AdAge.
Pois bem, a turma da Droga 5 devia estar muito empu…aborrecida de ter perdido tantas concorrências para uma agência tão normalzinha. Podiam espalhar impropérios pela imprensa, tipo, os caras ganharam porque propuseram trabalhar de graça ou os caras pagam bola ou os caras vão trabalhar de graça e pagam bola.
Nada disso. Com a entrega da “conta cartão de Natal” para a McGarry, a agência “atacou” com bom humor. No release enviado à imprensa, pipocavam pérolas como “depois de 5 anos de relacionamento, a conta de Natal da Droga 5 decidiu sair da Droga 5”. Ou, nas palavras do CEO da Droga 5: “desejamos o melhor para toda a equipe do cartão de Natal da Droga 5 em sua nova agência.”. A habilidade de ser sarcástico no limite, sem ultrapassar a elegância é de dar inveja.
Perca uns segundinhos e aproveite para treinar o inglês porque vale muito a pena ler o release completo:

E o que fez o pessoal da McGarry? Brilhantemente comunicou que uma das agências mais reputadas do mundo era seu mais novo cliente.

E a tréplica da Droga 5? Num fair play exemplar twittou reconhecendo que a McGarry mandou bem.

Bacana. Acho que um negócio desses entre nossas agências ainda é impensável. Infelizmente. Ainda estamos mais para “os caras isso, os caras aquilo”.
Pra terminar. O Adweek, pra mostrar que esse negócio de cartão de Natal lá na América virou um SuperBowl para as agências se anunciarem, publicou um ranking com os 10 mais criativos cartões de 2011. O da McGarry (bacaninha…as usual) ficou em 4º lugar.
Já a posição do “cartão” da Droga 5: http://bit.ly/sIZKTk
Humor não é contrário de sério. É só o oposto de chato.
Quem em 2012 todos nós possamos rir mais de tudo isso. Afinal, como diz o Marcello Serpa: é só propaganda.






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