
O Portfolio Lovers, uma iniciativa muito bacana do Pedro Pletisch, tem uma sessão chamada “convidado do mês”. Em abril, fui convidado, aceitei e respondi algumas perguntas feitas normalmente por quem está começando a montar seu portfólio. O “ping-pong” está postado abaixo.
1- PortfolioLovers.
No fundo, no fundo, o que fez você escolher essa profissão?
Sempre adorei aviação, mas quando trabalhava na área descobri que uma vida binária (sim-não, positivo-negativo) não alimentava meu espirito. Gosto do “que tal se…”, “e se…”, “pensei que…” Portanto, não era na aviação que eu devia “amarrar meu burro” (dá pra imaginar um piloto perguntando para o controle de tráfego: “e se eu quisesse usar a outra pista?”) Hoje é fácil descrever aquele momento de vida em poucas linhas, mas quando descobri que meu amor de infância, a aviação, não era aquilo que eu imaginava, fiquei perdidinho durante alguns anos. Quando você não sabe o que fazer, melhor não fazer nada. Foi um período enriquecedor porque nessa espécie de scanner gradual de si mesmo, você acaba se conhecendo melhor, suas qualidades e defeitos, seus dons e suas incapacidades. Dessa época, ficou claro pra mim que eu, sendo extrovertido, galhofeiro, um tanto quando avoado, mais um tanto sonhador, apreciador do comportamento humano, com um gostinho especial pelo desafio, com sede de conhecer um pouquinho de cada coisa (nunca muito de uma determinada coisa) e um cara muito ligado em ficção tinha algo a ver com comunicação. E não é que tinha mesmo?
2- PortfolioLovers.
Muitos jovens tem dúvidas sobre sua escolha em ser um criativo. Que fatores ou “sinais” acha importante para ajudar nessa resposta?
Sabe, eu acho que todo mundo que é criativo, no fundo, no fundo, sabe que é criativo. Não é uma constatação que vem de repente, de uma hora para outra, mas basta olhar sua trajetória de vida que os exemplos de exercícios criativos estarão lá. Na minha infância eu tinha alguns times de futebol de botão. Tinha (aliás, ainda tenho, graças a Deus) duas irmãs menores que eu, cujo hobby official era pisar nos meus botões. Para ser justo, acho que cabe dizer que eu também tinha um hobby: virar os olhos das bonecas delas, deixando só o branco do olho aparente. Importante também dizer que o meu hobby precedeu o delas em alguns minutos. Nessas disputas fraternais, acabou que eu fiquei com um número de botões que só me permitia formar times com 8 jogadores. Tive que inventar um esporte parecido com futebol de botão, tive que inventar alguns times e seus distintivos (Barquinho, Sul Americano, Liceu, Jardim São Paulo, Proeme…), inventei o nome de todos os jogadores, das regras e até um tipo de fogo de artifício oriundo da apertada numa casca de mexerica (ao apertar a casca, sai uma “aguinha” que junto com o efeito sonoro que eu fazia com a boca –tchu-tchu-tchuuuu- resultava numa verdadeira bateria de fogos para celebrar a entrada dos times em campo). Conseguiria enumerar uma série de outros acontecimentos da minha vida pré-publicitária que já sinalizavam um certo perfil criativo. Se dá pra dizer que criatividade não se aprende, também dá pra dizer que ela se desenvolve, se altera, evolui. Mas quem é criativo hoje é porque já foi criativo em muitos “ontem”.
3- PortfolioLovers.
Anúncios, roteiros, ações, videocases, etc. Afinal, o que é legal ou não ter na pasta?
Muitas vezes alguém que vem me mostrar a pasta abre a sessão dizendo, meio sem jeito: “a maior parte das coisas é coisa que não foi aprovada”. Ao que eu respondo: “olha, eu não estou aqui pra saber como pensa o seu cliente, a sua agência ou o seu diretor de criação. Eu quero ver como você pensa”. Nesse sentido, estou me lixando se foi aprovado ou não. O que conta é o potencial daquela cabecinha sentada na minha frente. Se isso está na forma de anúncio, videocase, roteiro, pouco importa tampouco. A única coisa relevante é se aquilo que está sendo mostrado tem valor criativo, é uma boa ideia.
Outra coisa que me pedem com alguma frequência: “você tiraria alguma coisa da pasta?” Sempre respondo que o máximo que posso e, na minha opinião, devo fazer, é falar o que eu gosto mais e o que eu gosto menos. É muita responsabilidade dizer para tirar alguma coisa da pasta, porque amanhã essa peça pode fazer a diferença na frente de um outro diretor de criação. O que qualquer entrevistado tem que fazer é, depois de ponderar uma série de opiniões que ele julga relevantes, decidir ele mesmo se tal peça sai ou não.
4- PortfolioLovers.
Se pudesse escolher apenas 3 fontes de referências, quais seriam?
1)Vídeos. Chamo de vídeo tudo aquilo que tem movimento, independente da tela onde é exibida. Portanto aqui se enquadram cinema, TV (ah!, as séries americanas), filminhos de Internet; 2) livros de ficção; 3) a vida que corre lá fora (o que significa: frequente bares, sente nos parques, viaje muito, converse com a empregada sobre a novela, bata papo no taxi, pegue um transporte coletivo de vez em quando e tudo o mais que faz o dia de hoje ser a principal matéria prima da campanha que você vai apresentar amanhã).
5- PortfolioLovers.
Imagine que um dia, um de seus filhos escolha ser um criativo. Que conselhos daria?
O mesmo que daria se ele escolhesse qualquer outra profissão: se para ser um profissional acima da media nessa área você precisar se transformar num ser humano abaixo da média, tente outra coisa.


Bem, se precisasse escolher uma nova agência de propaganda, do jeito que as coisas funcionam hoje, é claro que eu faria como a grande maioria deles: abriria uma concorrência. Seria burrice se não fizesse.
A Wieden+Kennedy é uma das agências sonho de consumo de qualquer publicitário que se preze. Para quem não a conhece direito, vale dizer que ela nasceu numa capital pouco representativa (Portland) de um estado menos representativo ainda nos EUA (Oregon) e que seu primeiro cliente (com ela até hoje) foi uma pequena empresa de materiais esportivos que engatinhava à época: uma tal de Nike. Criativa, ousada, inovadora e sempre se repensando, a Wieden mantém publicações na Internet que vão muito além do seu próprio site. Uma delas é o blog “Welcome to optmism” (






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